Em entrevista ao O Otimista, a advogada cearense Imaculada Gordiano analisa a mudança do mercado jurídico para a governança preventiva e destaca a importância do preparo técnico, do hábito da leitura e do uso estratégico da tecnologia para o sucesso corporativo

Aflaudísio Dantas
aflaudisio@ootimista.com.br
“Você só vai ser advogada ou advogado se tiver uma mente empreendedora”. A afirmação é da advogada cearense Imaculada Gordiano, em entrevista ao O Otimista. Com atuação no mercado corporativo desde 1990, ela defende que o profissional contemporâneo precisa adotar uma postura proativa e estratégica, focada na prevenção de conflitos e no desenvolvimento de negócios.
A especialista, que participou ativamente da estruturação jurídica do processo de industrialização do interior do Ceará, destaca o distanciamento do modelo tradicional de litígios. “Hoje a gente trabalha muito pouco com processo, a gente trabalha muito com o que chamamos de governança jurídica”, explica, destacando que o processo judicial tornou-se oneroso para as instituições.
A advogada também avalia o impacto da tecnologia no setor e alerta sobre o comportamento dos novos profissionais da área, observando o uso inadequado das plataformas digitais no início da carreira. Para Imaculada, a inteligência artificial (IA) só gera eficiência quando direcionada por quem possui sólida base técnica e capacidade analítica.
Ela aponta ainda que o sucesso e o crescimento na carreira jurídica estão diretamente associados ao resgate do hábito da leitura e ao estudo expandido de disciplinas tangentes ao Direito, como Economia, Política e Filosofia.
O Otimista: Por que a senhora escolheu o Direito?
Imaculada Gordiano: Somos em dez irmãos. A gente, quando é criança, sempre pensa numa profissão, né? Enquanto as minhas cinco irmãs pensavam em ser professoras, e todas elas são professoras, eu pensei em ser advogada. Então, eu decidi que eu queria ser advogada. E fui estudar para isso. Foi uma decisão de leituras, né? Minha mãe era professora, a gente lia muito. E nessas leituras eu descobri a advocacia. E aí, com 15 anos, eu disse que ia ser advogada e hoje estou advogada.
O Otimista: Fora a senhora, tem mais alguém da família no Direito?
Imaculada Gordiano: Hoje só minhas duas sobrinhas, depois que viram a tia sendo advogada. Elas trabalham aqui comigo, são minhas sócias no escritório.
O Otimista: Durante muito tempo, o Direito sustentou o estereótipo de ser uma área muito agressiva e muito masculina. Ainda é assim?
Imaculada Gordiano: Quando eu me formei em 1990, realmente já tinha esse resquício de que era uma profissão 100% masculina, porque não tinha a diversidade de especialidades que a gente tem hoje no Direito. Mas o que diferenciava um profissional do outro era o conhecimento. Então, eu nunca considerei que o Direito fosse uma profissão masculina. O meu mindset sempre dizia que a profissão é de quem tivesse conhecimento. Então, esse foi o caminho que eu tracei. Nunca tive essa dificuldade. Por quê? Porque eu sempre procurei me destacar com muito conhecimento, com muito estudo, com muita estratégia.
O Otimista: Quais as principais diferenças do Direito praticado nos anos 1990 para o que é feito hoje?
Imaculada Gordiano: Hoje, no nosso escritório, a gente trabalha muito pouco com processo. A gente trabalha muito com o que chamamos de governança jurídica, aquela advocacia que trabalha o institucional da empresa, que trabalha o preventivo, que trabalha o proativo. O processo judicial, mesmo o processo da arbitragem, é extremamente caro do ponto de vista financeiro, mas também do ponto de vista de governança, do ponto de vista social de cada instituição. Então, eu vejo hoje a advocacia como uma profissão que é indispensável para o bem-estar e a função social da empresa.
O Otimista: Como a senhora resolveu atuar na área de governança? Foi sua primeira escolha?
Imaculada Gordiano: Foi. Eu já comecei a estagiar em um escritório de direito empresarial, que trabalhava com o antigo Banco Nacional. Então eu já entrei dentro dessa condição de contrato, sociedade, direito do consumidor, que veio com a Constituição de 1988. Tive a sorte de estar já nesse escritório. Depois tive a sorte de trabalhar num grande grupo econômico e comecei a ver como é que uma empresa pode sobreviver num País onde tudo é taxado, desde o produto, até a matéria-prima que ela compra ou exporta. Mesmo a relação que ela tem com o seu empregado ou com o prestador de serviço, como é que essa empresa mantém essa função social com tanta taxação. E vendo do ponto de vista da empresa, eu disse “agora eu vou ver como eu posso, estando fora atender essa empresa”. Foi todo um caminho olhado e trilhado para poder chegar aonde a gente chegou. E aí foi com experiência e com estudo.

O Otimista: E quanto a criar seu próprio escritório?
Imaculada Gordiano: Quando eu estava nesse grupo econômico, eu sai pouco antes de eles pedirem falência. Eles começaram a reduzir o que chamamos hoje de custo. Porque advogado não é custo, advogado é investimento. Quando você tira o custo do advogado, você vai aumentar um passivo. Esse é o verdadeiro custo. Eu saí desse grupo econômico e fui para o mercado.
E o grande responsável pelos escritórios jurídicos que a gente tem hoje, com esse status que temos hoje, foi a industrialização do interior do Estado do Ceará, que veio com o governador Tasso Jereissati, que depois deu a continuidade com o Ciro Gomes e com os demais governadores, mas esse foi o grande projeto de industrialização do Estado do Ceará e que a gente entrou muito forte com a implantação das indústrias de calçados, que até hoje estão aí.
Vários movimentos políticos diziam que não, que essas empresas não iam sobreviver, que essas pessoas viriam para cá explorar a mão de obra do cearense e iriam embora. Pelo contrário, a gente já tem indústrias aí com mais de 30 anos.
O Otimista – Sobre o custo da Justiça, o que a senhora destacaria?
O advogado hoje que vive de processos, provavelmente não está bem. O custo da Justiça para o Estado é muito alto. Então é muito melhor você trabalhar na governança para que esse processo não chegue. Isso significa analisar um contrato, fazer uma mediação. Hoje a gente vem apostando muito nas câmaras de mediação. Por exemplo, você tira aqui uma exigência, o outro lado também reduz e você chega num ponto que todo mundo sai ganhando. Esse é o papel da advocacia hoje.
O Otimista: Há espaço para os novos advogados que chegam ao mercado, já que houve uma proliferação imensa desses profissionais nos últimos anos?
Imaculada Gordiano: As pessoas dizem que tem mais advogado do que gente. Não, não tem. Nós somos hoje quase 300 milhões de habitantes. Quantos fatos jurídicos essa população gera? Você compra uma casa, você compra um carro, vende a casa, vende o carro. Daí você nasce, morre… Tudo que você faz gera um fato jurídico ou um ato jurídico. A gente pode ver qualquer situação dessa e não precisa gerar um processo para o advogado atuar.
O Otimista: Quando a senhora fala que advogado não é custo, mas investimento, certamente não engloba apenas a prevenção de ações trabalhistas…
Imaculada Gordiano: Uma coisa muito importante é a questão contratual. É muito importante sempre que você vai fazer um contrato ter um advogado. Isso não vale só para a empresa, mastambém para as pessoas físicas. Para que serve um contrato? Um contrato serve para te proteger. Se o outro lado não cumprir o contrato, qual é a segurança? Quais são os meus direitos? E quais são as minhas obrigações? Se eu não cumprir minhas obrigações, quais são as cláusulas de penalidades?
Também temos aqui no Brasil o público empresarial. Quantas pequenas empresas nascem, morrem e morrem muito rápido? Muitas vezes essa morte é por confusões entre sócios, principalmente nas empresas familiares. Por quê? Porque não há um protocolo de governança familiar entre a primeira geração. Aí, quando chega a segunda, já não há entendimento, porque já é o sobrinho com o tio. Enquanto os pais se davam bem porque eram irmãos, daqui a pouco é o tio com o sobrinho que já não se dá bem, os primos que já não se falam.
São questões familiares que o contrato social não alberga, mas que no protocolo de governança familiar poderia albergar. Aí vem o direito tributário: a gente vive num País com muitas normas jurídicas tributárias, e estamos aí já dentro de uma transição, de uma reforma tributária que as pessoas leem, mas não entendem. Então, nesse contexto, a gente entra muito no suporte da interpretação, da transição.
O direito inovou, como tudo inovou. Então, veja quantas coisas a gente tem para fazer sem precisar entrar com uma petição, sem precisar ir aos Fóruns. O processo é uma consequência. Lógico, se o meu cliente precisar, eu vou fazer, mas é o resquício do resquício.
O Otimista: Como a senhora vê as regulações no Brasil? Há um excesso de leis?
Imaculada Gordiano: A gente não tem como dizer se é bom ou ruim. A gente tem que conviver. Muitas mudanças acontecem no Brasil por causa dos pactos que ele acaba assinando de convenções com outros países. Então a gente tem, por exemplo, a comunidade europeia que acaba criando várias convenções e que o Brasil acaba tendo que aceitar.
O Otimista: Qual o principal desafio que os advogados recém-formados vão encontrar?
Imaculada Gordiano: A gente tem percebido muito, entre os estudantes de Direito, a dificuldade que eles têm de criar um tempo para estudar. E não estudar só o Direito, mas ler outras matérias que são tangentes ao Direito, como a própria Economia, a Política, a Sociologia, a Filosofia e a própria Literatura. Os alunos não querem parar para ler. A gente, às vezes, pega o estagiário de Direito que não sabe nem pronunciar determinadas palavras. Eles têm utilizado a IA não para o crescimento profissional, e sim para a preguiça. E isso está criando um gap cognitivo muito grande.
Enquanto eu uso a IA para melhorar o que eu já sei e trabalhar bem a minha estratégia, ele está usando porque não sabe. E aí ele não consegue saber se aquilo que a IA está dizendo é certo ou errado. Enquanto eu tenho toda uma bagagem de conhecimento e eu sei conversar com a IA, em 10, 20 ou 30 segundos eu tenho uma resposta. Por quê? Porque eu tenho conhecimento. Hoje o grande desafio do estudante e do profissional que está entrando no mercado é o conhecimento. Se ele não tiver o conhecimento do Direito, ele não vai ter mercado de trabalho.

O Otimista: Como combater isso, na sua opinião?
Imaculada Gordiano: Primeiro começa com a questão de educação. Por exemplo, eu tenho uma filha que é médica e tenho outra que é publicitária. Elas sempre tiveram hábito de leitura. Então, a gente começou com livrinho de tomar banho, depois o gibi, leituras mais complexas. Eu lembro que, quando íamos ao shopping Iguatemi, elas iam direto para a livraria Saraiva. Então, tudo é questão de educação, é o hábito da leitura. Depende da educação familiar. A base ainda é a família.
O Otimista: Há um temor de aumento de plágio no mercado da advocacia?
Imaculada Gordiano: Tem sempre. A pessoa hoje pode entrar no processo e copiar uma tese. O que você vai fazer? Agora, qual é o seu diferencial? É como você vai manejar uma audiência de instrução. Ele não vai poder copiar a forma como você vai manejar uma audiência de instrução, como você vai conversar com a testemunha, como você vai provocar a testemunha da outra parte, como você vai fazer suas razões finais. Mas a gente não trabalha só com isso, a gente trabalha com pareceres, com consultas, a gente trabalha desenvolvendo protocolos, então esse intelecto é só seu.
O Otimista: Para além do Direito, a senhora se envolve bastante em programas sociais. Como nasceu esse seu lado filantrópico?
Imaculada Gordiano: A minha mãe, que foi professora, ajudava trabalhadores rurais a conseguirem a aposentadoria. Então, quando eu saía de férias, que eu ia para Trairi, que é a minha cidade natal, a gente tinha que ajudar a fazer a entrega dos carnês. A maioria não sabia escrever o nome. A gente os ajudava a pegar o dedão, colocar aqui, para pegar a identidade e receber o carnê. Começamos a fazer um trabalho voluntário para idosos no Instituto professora Olga Gordiano Barbosa, que leva o nome da minha mãe. Então, a gente vem desde 2005 nesse trabalho, após a morte de minha mãe, ajudando quem precisa com cadeiras de roda, cestas básicas, médicos, consultas…
O Otimista: Entre o Direito e filantropia, há tempo para desconectar?
Imaculada Gordiano: Eu gosto de ficar com minhas filhas. Tem um momento só nosso, que é ir para a missa de domingo, na Igreja da Paz, que eu adoro.
O Otimista: Se a senhora fosse definir seu trabalho em uma frase, qual seria?
Imaculada Gordiano: O direito é governança estratégica.
O Otimista: Algum conselho para os futuros advogados do Brasil?
Imaculada Gordiano: Que você só vai ser advogada ou advogado se tiver uma mente empreendedora. E o empreendedorismo na advocacia requer estudar, ser um amante dos livros.
Por: Imaculada Gordiano, Sócia-Fundadora.
Sócia-Fundadora
Sou advogada, empreendedora, sócia-fundadora do Imaculada Gordiano Sociedade de Advogados. Orgulho-me dos mais de 30 anos na profissão e de ter me tornado modelo para que as novas gerações femininas transcorram seu caminho profissional no Direito com postura ativa sem o constrangimento de ser mulher.
Sempre olhei para a frente, pensando em como pegar uma dificuldade e transformar em facilidade. Grávida da minha primeira filha e sem trabalho, propus uma parceria com o antigo empregador; contratei uma equipe de advogados e implantei o departamento jurídico para assessorar a companhia dele. Acordo fechado! Entrei como consultora e saí como superintendente.
Minha expertise em Direito Empresarial, área de minha especialização, tendo como carro-chefe a Governança Corporativa, chegou aos ouvidos de grandes investidores que enxergaram no Ceará a possibilidade de instalar indústrias que produzem grandes marcas que estão nas melhores vitrines do mundo. Foram meus primeiros clientes e muitos permanecem até hoje. E já se vão 25 anos de IGSA – Cada Vez Mais, levantando meu lema de estar sempre ao lado do empresário.